23.8.10

memórias


É estranho [no mínimo] googlar ao acaso [quase ao acaso, vá] e encontrar uma imagem do que fez parte do nosso passado. Aqui, à minha frente, uma imagem. Apenas uma imagem, que desencandeia um turbilhão de memórias de infância felizes.
O percorrer dos campos com o Sr. A., as botas metidas dentro das galochas, sentir as ervas molhadas da humidade de noite, o dia a nascer devagarinho, os cães a correr à nossa volta.
A água que vinha da presa, fresca e límpida, que fazia tão bem aos rins do meu avô. As lavadeiras ajoelhadas nas pedras de granito dos regos. As mulheres da lavoura com os cestos da vindima. O milho espalhado na eira. A comida do pessoal do campo. Os refrescos de café. O vinho morangueiro. O depenar das galinhas. Lavar a jaula do cão à mangueirada. O lagar da jeropiga. O gato atrás de mim, sempre atrás de mim. O cão Minho, um Pastor Alemão. O cão Leão, um Castro Laboreiro. Os gansos que não me mordiam. O meu carro vermelho de rodas amarelas para ir às amoras. O assalto aos morangueiros. Debulhar o milho. Trepar à pereira. Rebolar no coradouro. Ter um sítio secreto protegido de intrusos junto à colmeia. As cobras que encontrávamos pelo caminho. Apanhar grilos. Os pintainhos amarelos. Aprisionar escaravelhos. Os relógios a darem badaladas, um a seguir ao outro. A roupa para a missa de domingo. As esfoladelas nos joelhos. Andar descalça por todo o lado. Os banhos no tanque. Os banhos na presa. Apanhar sol em cima da placa dos porcos. O vinho morangueiro aquecido com açúcar amarelo para curar a tosse convulsa [curou]. As farpas nos dedos. Os cães transformados em vacas que levávamos para o monte. Conduzir o carro das vacas. O leite acabado de mungir. Mostrar ao galo garnizé quem mandava no galinheiro. Adormecer dentro do carro das vacas no meio do campo ao sol. Comer marmelada feita pela Titi. Chupar azedas. Andar de mota do portão à garagem. Ter medo das protecções de ferro por cima das portas. Escapulir-me para a cama da Titi a meio da noite. Fugir da matança do porco para o mais longe que conseguia. Tremer ao ver as chamas na mata. Ser a protegida da aldeia. Levar comida ao velhinho da casa ao lado. Descobrir cantos e recantos da quinta. Andar de baloiço. Aprender a andar de bicicleta. Comer uvas morangueiras até ficar com dores de barriga. Fazer vinho. O fogão a lenha. A roupa branca estendida. A minha avó. A vista para o rio. Esconder-me na garagem dentro do carro da Titi e fingir que estava a conduzir. Ver nascer bezerros a meio da noite. Fazer bolos em formas de queques no fogão a lenha em miniatura. Mungir vacas. Apanhar figos quentes do sol e comê-los.
Eu entendi a minha mãe e o meu tio, os meus filhos nunca vão compreender o encanto das memórias que guardo das minhas férias de criança.

Alena da Gigi

Alena Seredova

Gigi di Torino


Gianlugi Buffon

o rato que veio de Roma

Gigio

"dormo"

local: Paraíso
Segundo a ferramenta de tradução do google: muito sono = dormo, em italiano. O que faz todo o sentido [se me deixassem era exactamente o que fazia], das duas uma ou a tradução está engatada ou os italianos estão muito à frente e não é só nos carros.


viva a invasão romana neste blog

Há uns dias atrás referi que o meu próximo carro ia ser um Fiat 500. Foi uma coisa, assim, do momento. A minha carrinha tinha pifado 15 dias após o fim da garantia [é de tirar qualquer um do sério, convenhamos] e num impulso a minha vontade foi empandeirá-la e trocá-la por um Fiat 500, o problema é que preciso de uma bagageira.
Mas, Deus é grande e, a minha carrinha está na oficina e eu troquei um carro do mesmo segmento por um Fiat 500 como carro de substituição.
Gosto de carros, gosto de conduzir, gosto de conduzir carros diferentes. Por 3 dias vou conduzir um Fiat 500 e não podia ter calhado em melhor altura.

invasões romanas

Este blog foi invadido por uma "febre" italiana.

conselho gratuito

A não ser que não tenham crianças em casa, a não ser que a usem só para dormir [e sem se mexerem muito], não comprem camas na Ikea. É só um conselho.

la bella Italia I

a vida pode ter a cor dos nossos sonhos II

22.8.10

muita praia

foto: Olhares
Fim de semana maravilhoso. Muita praia, muito sol. Não fosse pela M. e tínhamos ficado na praia até o anoitecer. Hoje, repetimos. Muita praia, muito sol. Mais umas páginas de leitura postas em dia. Mas do que eu estava a precisar mesmo, era de sentir a água do mar e, o mar brindou-nos, a água estava fantástica: límpida, refrescante sem estar gelada. Do melhor. Mesmo. Venham mais fins de semana com calor e sol.

flores


"There are always flowers for those who want to see them"

Henri Matisse

somos todos descartáveis


Vivemos numa sociedade descartável. Todos os sabemos. Já não se deixa depósito para depois irmos devolver as garrafas vazias e recebermos de volta o depósito. As garrafas de vidro do leite foram substituídas pelas embalagens de papelão, quando vazias desdobram-se e depositam-se de vez no ecoponto amarelo. Os copos de vidro do iogurte são agora de plástico e quando vazios acabam no mesmo sítio dos pacotes de leite. As garrafas de cerveja, que continuam de vidro, já não se entregam no sítio onde as compramos e deixámos o depósito, existe um ecoponto verde onde as deixar. E os antiquados garrafões de água, em vidro com uma capa de plástico, também foram substituídos por mais plástico e o ecoponto amarelo está lá no mesmo sítio à espera deles quando vazios. Claro que tudo isto é assim se houver um ecoponto por perto e, mesmo havendo, se existir alguma consciência ecológica por parte de quem comprou e não deixou depósito, caso contrário vai tudo parar ao lixo e não se fala mais nisso.
Se virmos bem, o que passámos a fazer com as embalagens, é exactamente o que se passa em tudo o resto. Antigamente comprava-se um frigorífico e esperava-se que durasse uma vida. Quando avariava chamava-se um técnico que o arranjava. A verdade é que actualmente a maior parte das avarias não compensam o arranjo. Vivemos numa sociedade de consumo e é mais fácil [e barato] substituir por um novo. As máquinas do lar foram feitas para durar meia dúzia de anos, os carros para serem trocados de 4 em 4 anos, a partir de determinada altura é só chatices. Inundações em casa porque não usámos calgon ou calgonit e as máquinas são subitamente invadidas pelo calcário ou a chatice da electrónica lixou um módulo que sai quase mais caro que a máquina, os carros, como toda a gente sabe, quando começam a dar problemas habituam-se a sentir as mãos do mecânico e depois não querem outra coisa. Os nossos sapatos deixaram de ir ao sapateiro, quando acabam as solas ou as capas deitam-se fora [ou dão-se aos pobres] e aí está uma boa desculpa para comprar-mos o modelito que vimos na montra daquela sapataria. Nas calças dos miúdos já não são cozidas joelheiras, os saldos da Zara tem umas em conta que são quase o que leva a costureira a cozer umas. O telemóvel nem precisa de avariar, basta sair um modelo mais bonito, mais actual, que tenha mais uma função qualquer [mesmo que nunca tenhamos precisado dela nem a venhamos a utilizar] e é substituído na primeira passagem pela loja. Se um empregado muito válido para a empresa quer sair porque acha que está a ser mal pago ou tem poucas regalias é deixá-lo sair e contratar um recém licenciado por um quarto do ordenado e está feita a coisa. Já ninguém lava fraldas de pano, é mais fácil ir ao supermercado comprar um pacote das descartáveis. Os guardanapos de pano caíram em desuso e os de papel agora são reis à mesa. O cão que já não corre e arrasta-se deixa-se num sítio qualquer e o gato que já não acerta no caixote para fazer as suas necessidades fica a fazer companhia ao cão, a caminho de casa passa-se na loja de animais e compra-se um hamster ou uma tartaruga que dão menos trabalho e a criança nem vai dar por falta dos animais, afinal também já não lhes ligava muito. O avô e a avó são enfiados num lar quando já não tem energia para tomar conta dos netos e precisarem de alguém que tome conta deles. E, já nem os móveis são comprados para toda a vida, afinal existe a Ikea e mais vale ir comprar uma mesa nova e aproveita-se para mudar toda a decoração da casa e deitar fora aqueles presentes de casamento que já ninguém usa.
Também nós, pessoas passámos a ser descartáveis, mas desengane-se quem pensar que qualquer um de nós é descartável apenas para a entidade patronal. Somos de um modo geral descartáveis. É a lei do lucro. Procura-se lucrar a todo o custo. Não interessa quem fica por baixo, desde que não seja o próprio. Deixou de se dar verdadeiro valor às pessoas, aos outros. Não se valorizam sentimentos. Tudo é um dado adquirido como se todos fossemos crianças mimadas [no mau sentido, entenda-se]. Déspotas, que à mínima contrariedade nos voltamos para quem com facilidade está do nosso lado, para quem nos dá mais naquele preciso momento. Já não temos paciência para aturar os problemas dos outros, ouvimos-los num momento de tédio e entretemos-nos até termos uma nova distracção que nos apraz mais. A lealdade é um sentimento em vias de extinção, tal como os trocos que um dia deixámos de usar como depósito das embalagens.

20.8.10

pessoas-corvo

Existem pessoas que interferem com o meu estado. Não sei explicar, mas interferem. Chamo-lhes pessoas corvo porque parece que trazem uma névoa escura à volta. São pessoas negativas, das que nos puxam para baixo. Umas por mal, outras apenas porque são assim mesmo, negativas, pessimistas, que vêm maldade em tudo e em todos, desgraças iminentes, nada pode correr bem e quando corre é uma sorte dos diabos. Queixam-se a toda a hora das crueldades da vida para com elas, prevêem o azar que lhes vai bater à porta. Algumas numa versão mais negra transferem todas estas desgraças para os outros como uma doença altamente contagiosa. Basicamente a felicidade(?) delas resume-se a ver o circo (leia-se, a vida dos outros) pegar fogo. Usam um tom de voz que soa a ladainha para espetarem farpas e assim conseguirem que um dia salte a tampa ao enfarpado, estando, assim, na primeira fila a assistir ao espectáculo.
Estas não me incomodam muito, topo-as à distância e basta-me afastar para que se tornem inócuas. As que me incomodam são as que são assim mas sem a maldade e que podem até fazer parte do círculo mais estreito. Essas sim, interferem no meu bio-ritmo. Só a sua presença mexe comigo fisicamente. Esgotam-me as energias. Lembro-me de uma pessoa com quem privei durante muitos anos que bastava-me a sua presença para que eu sentisse o meu estado de espírito mudar, entrar na casa dela era um sacrifício, saía sempre de lá com a moral feita um caco. Era extenuante para mim e muitas vezes pensei o quão triste deveria ser ser-se assim. Triste, de mal com a vida, sempre com o pensamento da desgraça a bater à porta.

outro jornalismo

Hoje, numa conversa de escritório sobre jornalistas e programas de informação lembrei-me dela. Maria Elisa. A voz, a postura, a seriedade, a falta de sensacionalismo, o cuidado na preparação dos programas.
Tenho saudades de a ver no pequeno ecrã.

a vida pode ter a cor que quisermos

elogios



"I’m tough, I’m ambitious, and I know exactly what I want. If that makes me a bitch, okay."

Madonna

19.8.10

Napoleão & Josephine


"Until then, mio dolce amor, a thousand kisses; but give me none in return, for they set my blood on fire."

Napolean Bonaparte, letter to wife Josephine, December 1795

Balzac & Evelina



"I can no longer think of anything but you. In spite of myself, my imagination carries me to you. I grasp you, I kiss you, I caress you, a thousand of the most amorous caresses take possession of me."

Honore de Balzac, letter to Evelina Hanska, June 1836

encha mais a sua casa


Há noites em que em vez de ser mãe de dois sou "mãe" de três. Vou buscar o T. e trago o R. para casa também. Depois seguimos os três e vamos buscar o A.
Hoje é uma dessas noites. O R. um dos "melhores" amigos do T., é mais velho. Nada que incomode o T. que sempre teve propensão para ser dar com todas as idades e fazer amigos com idades diferentes e por vezes até improváveis. Acho lindo, vê-los aos três. O R. trata o A. exactamente da mesma maneira que o T. O A. adora-o. Jogam tudo o que é jogos juntos e neste momento tenho os três no hall de entrada sentados no chão a jogar o jogo de cartas do Sherk oferecido pela Mc Donalds. O que já me ri com o jogo deles com as figurinhas que eles fazem e com os disparates que dizem. E é tão bom, vê-los, assim, felizes.

a Maria tem um sonho e eu acredito que o vai realizar

"Quando aqui vos disse…

… que continuo a acalentar este meu sonho com a vontade redobrada de quem investiu e investe tudo o que tinha e tem nele: toda a formação, todo o dinheiro, todo o tempo, o melhor de mim, queria acima de tudo dizer-vos que um sonho, mais do que uma ideia bonita em torno de “ai, eu um dia…”, é algo que tem que forçosamente se materializar sob pena de não passar disso mesmo, de uma ideia bonita.

Quando se quer muito uma coisa na vida, pega-se num papel e numa caneta, marca-se um caminho e custe o que custar [e tem dias em que só nós e o Senhor é que sabemos o estado de lástima em que nos encontramos] não nos desviamos dali, não arredamos pé, não fraquejamos, não desistimos, não vamos embora.

Hoje olho para trás e conto com duas licenciaturas no meu Curriculum e três pós-graduações. Hoje olho para trás e não vejo as férias que perdi, as viagens que não fiz, tudo aquilo de que me privei. Hoje, continuo agarrada àquele papel onde um dia tracei o meu sonho e olho em frente. Mesmo quando tropeço, mesmo quando as pernas me falham, mesmo quando a dúvida se instala, eu olho em frente."


(fazer duplo clique na imagem para ampliar]

felizes são os ignorantes



Não vejo notícias. Não leio jornais. Não quero saber. Juro que não quero saber. Irritam-me as imagens despudoradas que mostram e a leviandade com que o fazem. Eu não preciso de ver uma imagem chocante para ter a noção da brutalidade envolvida numa notícia. Não preciso. A minha imaginação consegue fazê-lo. Mesmo essa, a imagem emitida pelo meu cérebro fica ali a pairar como um pesadelo repetitivo. Odeio notícias cheias de corpos inanimados e estropiados. Execuções filmadas por câmaras amadoras. Crianças quase mortas de fome, de desidratação, de pestes nos braços de um dos pais. Torturas captadas por câmaras de vigilância. Não quero saber, não quero ver.
Em casa a televisão nunca está num canal com notícias. Tive inúmeras discussões com o pai dos meus filhos, que tão informado que gostava de estar, ligava a tv e zarpava para outro lado qualquer da casa deixando todo um chorrilho de desgraças entrar sala dentro, ali, à mercê de uma criança que cirandava e claro especava-se na frente do aparelho. Agora é proibido, a televisão não pode estar em canais com notícias a não ser que esteja alguém de facto a ver e com o comando na mão preparado para mudar de canal. Eu sei que não posso [e não devo] poupar os meus filhos a tudo, mas há coisas que eles dispensam e garanto que não é por não verem certas imagens que vão ser menos informados, menos conscientes.
Já para não falar que, na minha modesta opinião, este tipo de imagens são passadas tantas vezes e com uma naturalidade tal, que às tantas tem o efeito inverso, já ninguém quer saber, já é tão normal.
Eu prefiro continuar as usar os meus óculos cor de rosa para ver o mundo como gostaria que fosse e não saber, a ser perseguida por imagens chocantes e ter a certeza todos os dias da merda que existe no mundo.

"cozinhar é um acto de amor"

Já tinha ouvido a expressão inúmeras vezes, já cozinhei muitas vezes com verdadeira devoção, mas o sentido real da expressão só o senti verdadeiramente estas férias.
Finalmente percebi o que é de facto. É maravilhoso. E eu, aprendiz de chef quero senti-lo sempre que me atirar aos tachos.

[Deus protege os desleixados]


imagem: Enid Coleslaw

Já não ia ao oftalmologista, à vontadinha, à mais de 10 anos. Dessa vez, receitaram-me uns óculos para lêr, escrever, ver televisão e, sobretudo, para quando estava ao computador, porque, dizia a médica: "A sua vista está extraordinariamente cansada". O medo e o horror apoderaram-se de mim. Não tenho nada contra óculos, aliás sou dependente dos escuros, mas não me apetecia nada aos 20 e tal anos ficar dependente do acessório e, pior, era sinal que a minha visão se estava a degradar. Mas tudo isto é muito bonito no dia em que saímos do médico cheios de boas intenções e vamos directamente ao oculista e-os-óculos-afinal-não-ficam-assim-tão-mal. Durante os primeiros tempos [uma semana, vá] a coisa está fresquinha e passam-se os dias a pôr e a tirar óculos e a limpar as lentes e a arrumar na caixinha e a vida parece que de repente gira à volta das lunetas. Volvida uma semana e já só se usa se estiverem ali à mão de semear e, é se nos lembrarmos que falta o acessório pendurado no nariz.
Resultado? Andaram a saltar de gaveta em gaveta, mas na cara nunca mais foram vistos. 10 anos volvidos, ao marcar a consulta de oftalmologia lembrei-me dos ditos e apesar de achar que me iam receitar mais graduação[duas gravidezes pelo meio e tal não deveriam ter dado muita saúde], achei melhor levá-los. Felizmente que a moda é cíclica e os óculos usados na época usam-se agora e eu poupava uma pipa de massa em armações.
Mas depois, Deus é grande e tudo isso e a menina não precisa de óculos para nada que tem uma visão fabulosa que até vê acima da média. Não satisfeita, toma lá mais uma cerejinha que o infante mais novo também tem uma visão 10% acima para a idade.

18.8.10

eu & eu, somos duas [uma luta de opostos sem meio-termo]


Eu sou urbana e mudava-me para o campo num piscar de olhos. Gosto de saltos altos e adoro andar descalça. Uso prata e perco-me com pérolas. Gosto de cores fortes e derreto-me com os pastéis. Tenho cabelo comprido e facilmente o cortava curto. Sou independente e gosto de sentir o conforto de uma mão. Entusiasma-me conduzir um Ferrari e um Fiat 500 não me entusiasma menos. Gosto de dias calmos e vibro com dias agitados. Oiço rock e deixo-me envolver por uma ópera. Gosto de tecidos esvoaçantes e aconchego-me nas lãs. Vibro com o Verão e gosto dos jingles do Natal. Leio espionagem e deixo-me levar num romance. Colecciono pijamas e adoro lingerie. Uso verniz branco e verniz vermelho. Gosto de vestidos de princesa e gosto de jeans. Como gelado de chocolate e gelado de framboesa e limão. Gosto de margaridas e de orquídeas. Gosto do moderno e do antigo. Gosto de voiles e de cortinas às florinhas. Mergulho no mar e rebolo na relva. Gosto do amanhecer e do anoitecer. Gosto de Nova York e de Vila Nova de Cerveira. Gosto de minimalismo e de romântico. Gosto de botas de camurça e de sapatilhas de ballet. Gosto de casas antigas e de casas modernas. Como manteiga e lambuzo-me doce. Gosto de jogar crapot e de Age of Empires. Gosto de cães grandes e de gatos pequenos. Gosto de galopar e de fazer yoga. Gosto de casacos militares e de encharpes. Gosto de velas brancas e de lustres de cristal. Gosto de fotografia e de lápis de côr. Teclo sms e escrevo cartas de amor.
E assim, nesta pequena amostra percebo que podia viver duas vidas completamente distintas e sentir-me viva e única em ambas. Díficil é equilibrar as duas numa só.

Cheira a fim de Verão e hoje o meu edredão voltou

17.8.10

momentos [bons] nossos



a vida pode ser doce [com os ingredientes certos]

abençoadas férias



Não sei se foi do calor, dos banhos na piscina, do som dos grilos à noite, dos grelhados, dos livros que li, das gargalhadas deles, dos mortais para a piscina do mais velho ou se foi apenas a paz que tomou conta de mim durante as férias. Sinto-me diferente.
Uma semana de trabalho após o regresso das abençoadas férias. Estou diferente.
Existem pessoas que valem a pena. Existem pequenos nadas que valem sorrisos. Existem momentos para serem vividos. Tudo o resto é passageiro como uma chuva de verão. Não vale a pena. Uma lavagem e fica limpo e se não apetecer ter o trabalho, é olhar para o lado e ignorar.
Estou, mais uma vez, diferente.
Deve ser isto que é ser adulto. Problemas, preocupações e resoluções em catadupa. Umas atrás das outras. Mal resolvemos um e aparece logo outro. Uma responsabilidade, uma exigência. Ser adulto cansa. É tão mais fácil não termos de resolver, haver quem resolva, quem pense, quem se preocupe. Quando se é Adulto, não há. Somos nós. É connosco. Não dá para assobiar para o lado.
A minha visão da vida está diferente.
Nem tudo tem de ser resolvido. Nem tudo são preocupações. E, como eu também já sabia, mas por vezes ignoro, há sempre um lado B [ou A, de alternativa] que nem sempre é mau. A maior parte das vezes não é mau, é diferente, é desconhecido.
Estou diferente. Serenei. E se não vale a pena nem me dou ao trabalho. Finalmente, interiorizei, e por muito certas que sejam as minhas convicções, há guerras em que não vale a pena entrar. É desgastante e o resultado, mesmo que favorável, fica aquém da energia despendida.
Estou diferente. Estou serena.
Abençoado calor, abençoados banhos na piscina, abençoado som dos grilos à noite, abençoados grelhados, abençoados livros que li, abençoadas gargalhadas deles, abençoados mortais para a piscina do mais velho. Abençoada paz que se apoderou de mim.

Félicitations pour une petite gamine

[porque existem momentos inesquecíveis e pessoas incomparáveis]


Lipstick Jungle [versão melhorada] I

E lá estava eu, no sítio combinado, a ligar-lhe para saber onde ela estava, quando me aparece ele pela frente. [E que saudades que já não o via há tanto tempo]. E finalmente encontramo-nos, os três e, ela e ele conheceram-se, finalmente. E sentimos os três que nos conhecemos desde sempre. E decidimos onde vamos almoçar. E estamos os três de acordo. E nós as duas, [que afinal somos apenas uma], fazemos dele gato-sapato [ele reclama, mas gosta]. E falamos das nossas coisas, daquelas que não assumimos a mais ninguém. E brincamos e rimos, uns dos outros e de nós próprios. E vamos fumar um cigarro, porque nenhum de nós ultrapassou a fase oral [mais uma em comum]. E temos que ir embora, porque uma tem uma revista para pôr nas bancas e ele um filme para produzir e a outra uma colecção para desenhar. E beijos, até já.
E eu quero mais almoços assim.

Lipstick Jungle [versão melhorada] II

"E lá estava eu, no sítio combinado. Estava ao telefone ali mesmo à minha frente. Caramba que saudades, e está gira que se farta. Quem sabe no meu próximo filme. Aposto que aceita. Vamos lá quero conhecê-la. Degraus e degraus, lá está ela, e diabos me levem se aqueles olhos existem. Conhecemo-nos enfim, bate tão certo. Restaurante escolhido, fazem-me de gato sapato e eu finjo que não gosto. Gosto da cumplicidade entre elas, e da que nasce a três assim genuína e saboreada. Soltam-se risos e conversas, e (re)descobrimo-nos aos poucos. Que querem que faça, estão tão juntas na minha zona de afectos, daqueles que nem vale a pena disfarçar. Café e cigarros e outras conversas, quase sérias por vezes. Voltamos, de encantos rendidos (será que gostou de mim?) ao dia a dia. A minha produção, a revista de uma e a colecção de outra. E aqueles olhos, que nem sei se existem… no meu próximo filme. E eu quero mais almoços assim."

Lipstick Jungle [versão melhorada] III

"E lá estava eu no sítio combinado. Aparecem os dois [ena, o tipo é alto...], chama-me parva com um sorriso maroto. Boa. Não se intimida. Posso baixar as defesas. É cá dos meus. Restaurante em concordância, lá vamos nós. Afinal não altera nada. Dar um rosto a alguém que nos liga na noite de Natal, que nos conta a vida, que nos protege ao negar uma realidade que nada muda o nosso estado não altera nada.
E é tudo tão simples, Tudo tão fluído. Os risos e as confidências e o bife e as meias palavras que não precisam de continuar porque o outro já entendeu, a falta de necessidade de agradar porque já nos conhecem, já gostam, já sabem, já tudo.
E o tempo aqui é contado não por dias mas por situações. Por estar ao lado quando necessário. Pelo comer das passas à meia-noite. Pelo pensar no terceiro quando ele nos falta. E eu, que os conheci com as mãos frias, saí deste almoço com o coração bem quente.
E eu quero mais almoços assim."

24.7.10

e finalmente

Exausta de um dia demasiado longo a apagar pequenos fogos e a apanhar demasiadas pontas soltas onde não existem novelos insubstituíveis, mas onde pelos vistos há uns mais substituíveis do que outros. Apesar do caos de trabalho dos últimos dois dias de preparação para sair para férias está tudo pronto para rumarmos ao nosso templo zen. E a semana pareceu-me demasiado comprida para um período de férias que me parece que vai passar demasiado rápido. Resta-me aproveitar ao máximo o sol e a paz.

23.7.10

regressos

foto: Olhares

E a casa enche-se outra vez. E passamos do som de fundo da televisão num qualquer canal de séries para passar a ter sirenes, gargalhadas, risinhos, cumplicidades e até a choradeira do A. vinda do quarto do Nemo e que se espalha pela casa toda. E a alegria à chegada...tão grande, os abraços vão-me ficar marcados para sempre na memória. Tantas saudades. E correm pela casa numa brincadeira constante e incansável. E atropelam-se a falar, sequiosos que vinham uns dos outros e de nós e nós deles.
Temos a casa cheia outra vez.

Se o próximo inverno for tão frio como o último sou menina para comprar umas destas

se fossem Ferrari...



[nós aos olhos de quem nos vê] - Ainda existem histórias de amor

Parvos, andamos parvos (já ninguém nos aguenta). Esfregamos a felicidade na cara dos outros, esborratamo-los de impaciência, piedade e escárnio. Ele é meu querido para aqui meu amor pracoli e todos à nossa volta esbracejam e se afogam neste mar delicodoce, como se uma novela brasileira em que elas são fáceis e dengosas, ou como se um casalinho da Rinchoa que se abraça aos solavancos na carruagem da linha de Sintra, ela pra mais um dia de nariz enfiado nos calos das doutoras e ele, sem ocupação definida, mas acompanhando-a com esmero à porta do cabeleireiro, onde por fim e a custo a desenlaça. Amor, meu amor, bebé, minha princesa, e as pessoas à volta riem baixinho, que falta de senso, de decoro, a bem dizer já não são miúdos, pais de filhos ainda por cima, e nós aos beijos, melosos, molhados, babados, as línguas expostas que se enroscam desabridas, temos pena se têm nojo, se sentem inveja ou pudor (já ninguém nos atura). Alegres e amantíssimos, lastramos o carnaval pelos lugares por onde passamos e desfiamos um ror de carinho imenso, nas ruas, nos restaurantes, na cama, estarrecidos, aparvalhados com isto que nos aconteceu, quem sou eu que já não sou eu? Para onde foi o que me amargava os dias, já agora deixa-me ver se se esconde entre as tuas pernas ou no fim das tuas costas. Somos sem os demais e sem-vergonha, ignoramos quem nos interpela e fitamo-nos aparvalhados, desconfiados e à espreita: o que me dizem hoje os teus olhos que ontem não me disseram? (já ninguém pode connosco). Andamos de mãos dadas, prerrogativa de crianças e velhos, com dedos que se esfregam e apertam, não vá a gente perder-se, afastados por meio metro. Ou então abraçados, agarrados como lapas, tu a cobrires-me com os braços, os ombros, contigo todo, como se a monção estivesse pra vir e me fosse levar, para lá do pontão, para além do mar. Fazemos um grupinho à parte, desdizendo-os e mal-dizendo-os, a minha mão em concha na tua orelha e a minha boca escondida, que tanto te lambe o after-shave como arrasa as personalidades presentes, aquela ali é mesmo parva, não é? e aquele? um imbecil! (já ninguém nos suporta). Enjoativos e incómodos, num deleite infantil, respondemos torto e a más horas e achamo-nos o máximo, ancorando-nos na protecção do outro. Somos bons, somos os melhores, e estamos plenamente concentrados na arrogância superlativa do Amor, com tudo o que esta traz de kitsch, de excessivo, de deselegante. Respiramos um outro oxigénio, digerimos de maneira diferente, os nossos ossos têm diversa composição, a nossa pele desenvolve uma textura única e os nossos cabelos fomentam toques subversivos, revolucionários, invisíveis ao olho humano. O mundo é o nosso recreio (já ninguém nos convida para as festas).

20.7.10

viagens


Está quase a fazer 3 anos que estive em Milão em trabalho durante uma semana. Passei os dias fechada num escritório a 5 minutos a pé do hotel, ao final da tarde e à noite aproveitava para conhecer um pouco da cidade da moda. Não "cheirei" nenhuma loja de griffe porque à hora a que chegava ao centro já estavam fechadas e muitas estavam fechadas para férias. Ainda assim, consegui sentir-me pequenina junto da Piazza del Duomo e fiquei fascinada com a Galleria Vittorio Emanuele e as suas lojas. Adorei a "fauna" apesar de a maioria das pessoas estarem para Sul de férias e Milão se assemelhar um pouco a uma Lisboa domingueira deserta, a verdade é que os bares e restaurantes tinham sempre muito por onde entreter a vista, muito pelas poses descontraídas mas principalmente pelas italianas [sim, fazem justiça à fama que têm, é muito difícil não virar o pescoço ao cruzarmos-nos com uma].
Coincidência ou não, quando regressei de Milão o livro que me esperava à cabeceira tinha como pano de fundo Milão e Roma. Este fim de semana acabei de ler um outro da mesma autora em que grande parte da história se passa em Milão. É sem dúvida uma cidade a voltar, a percorrer as ruas e ruelas, a "cheirar" as lojas todas e também a deliciar-me com a comida.

cores da minha vida

#1 nota do dia


Nem sempre os que chegam primeiro são os verdadeiros vencedores, mas chegar primeiro pode ter muitas vantagens.

19.7.10

Quico de gente

Faz hoje um mês que nasceu o "meu" Quico. E escrevo "meu" sem pudores, porque ele também é um bocadinho meu.
O Quico lembra-me os meus filhos, mínimos, quando me sobra mão à volta da sua pequena e redondinha cabeça parca de cabelo, quando o deito nas minhas pernas e ele fica ali encaixado como se ali fosse o lugar dele. Vejo-o dormir sossegado, vestido de branco como se de um anjo se tratasse e, trata-se. Poucas coisas se comparam à serenidade transmitida por um recém nascido, a vontade de perpetuar a aura que os envolve e a nós também. Sentir o pequeno corpo encostado ao nosso, os olhar que entra pelos nossos olhos, o cheiro, ahhh... o cheiro.
Gosto de bebés, adorei e vivi intensamente cada novo dia após o nascimento dos meus filhos, adorei-os minutos e horas sem fim. Perdia-me a olhar para eles, como me perco agora com o "meu" Quico no colo.

18.7.10

Lisboa, a minha cidade

foto: Nocturno


Há 11 anos comecei a sair de Lisboa de manhã e só regressava à noite. Há 9 deixei definitivamente de lá ir dormir. Mudei-me de armas e bagagens para outras paragens. Mas Lisboa, para mim, é a minha cidade, a minha terra. Foi lá que nasci, foi lá que cresci. Habituei-me muito cedo a sair dela, mas voltava sempre. Agora, passados 9 anos de lá ter deixado de morar sinto-lhe a falta. Gostava de morar e trabalhar em Lisboa. Gosto do movimento das ruas, das pessoas, da calçada que me dá cabo dos saltos, gosto da calma dos bairros ao fim de semana, do ar, dos autocarros, do metropolitano, dos jardins, das esplanadas,do céu, dos gatos vadios,dos prédios, das ruas e das das suas cores.
Sempre que saio, quer para norte, quer para sul, quer para fora, o regresso é sempre feito a Lisboa. Lisboa é sempre o destino, quer seja na placa da auto-estrada, do placar electrónico da estação de comboios ou do aeroporto. Voltar a Lisboa é sempre um regresso a casa. À minha casa.

mensagens



[o chat do facebook tem o mesmo efeito]

16.7.10

somos tão frágeis

Num dos pontos de fumadores da empresa onde trabalho costumava encontrar uma colega do departamento finaceiro. Baixinha de ar frágil, simpática, querida no trato. Mãe de um filho desportista que passava a vida entre nódoas negras e ossos partidos. Conversámos muitas vezes naqueles minutos que se demora a queimar um cigarro. Numa empresa com tanta gente conhecemos as pessoas e as histórias que partilham, o nome, esse, fica muitas vezes no desconhecimento. Não sei se ela sabia o meu, o dela soube hoje através da newsletter dos recursos humanos. Isabel. Chama-se Isabel, teve dois aneurismas. Assim de repente, fiquei a saber o nome dela, no meio de um pedido de uma cama articulada e uma cadeira de rodas. Não sei detalhes e também não seriam para aqui chamados. O que sei é que a Isabel, que fumava cigarros comigo enquanto falávamos dos desportos dos miúdos, de um momento para o outro ficou confinada a uma cadeira de rodas. O que sei é que nos chateamos com merdinhas, deixamos que outras pessoas nos estraguem dias, momentos. Passamos tanto tempo a fazer planos e a livrarmos-nos de obstáculos. Queixamos-nos do tempo, do trabalho, do trânsito, do chefe e dos colegas. Merdinhas. Insignificâncias. Não vivemos com o que temos, está-nos no sangue querer mais, querer melhor. Eu há muito que apregoo o mesmo: quero mais tempo, quero ter tempo para viver. A Isabel, não sei o que quer, mas imagino que quereria que o estupor do aneurisma não lhe tivesse sido oferecido e a tivesse deixado no estado que ficou.

Somos tão frágeis.

gostar de máquinas




[não preciso, mas quero-o]

vicíos

Os vícios são lixados. Sabemos que nos faz mal, nalguns casos sabemos que nos podem matar, mas continuamos, uma e outra vez, alimentamos o bicho que nos corrói por dentro com desculpas esfarrapadas, mentimos a nós próprios. É só mais esta vez! Juro que é a última! E uma, outra e outra vez injectamos o veneno que nos mata por dentro, que nos seca, que nos amarga. Só mais uma vez, porque a força do vício é maior, porque a força para matar é sempre maior do que para viver.



evolução

Fátima Lopes

-Como é que se emagrece daquela maneira depois de ter um filho?

[além disso é gira]