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29.3.11

síndrome de traça

Tenho andado entregue aos livros, o que me tem sabido pela vida e me ajuda a descansar [o que não é fácil quando é obrigação]. O último nem aqueceu, se no fim de semana quase não lhe peguei, no domingo à noite vinguei-me e, estava tão absorvida que tive de me obrigar a dormir, senão lia-o todo de rajada. Ontem acabou. E o chato destes livros é que quando a história acaba fica uma espécie de vazio e normalmente o seguinte fica aquém, veremos. Hoje começa uma nova história.

3.7.08

Ser adulto é uma seca

Ser adulto é uma treta. Ou pelo menos tem dias em que assim é. Ao contrário da percepção das crianças não podemos fazer tudo o que queremos, não temos o que desejamos, não ficamos a dormir o tempo que nos apetece e se ficamos acordados até muito depois da hora no dia seguinte pagamos a factura. Ao contrário do que as crianças julgam, ser adulo nalguns dias é uma verdadeira seca. E já nem falo da redução do tempo de férias, sim porque as crianças têm o quê, o triplo dos dias de férias? E nem têm de se stressar com a marcação das mesmas. Sim, porque não é preciso ficar ninguém a brincar com os seus brinquedos enquanto estão fora.
Mas ser adulto é principalmente mau, porque temos de ponderar, tomar decisões, por vezes até, mesmo não querendo e fazendo das tripas coração, temos de magoar alguém. Saber que uma acção, palavra, gesto meu vai ou magoou alguém corroí-me por dentro. É engolir ácido. Não gosto, evito-o ao máximo com todas as minhas forças. Mas como adultos que somos por vezes parece que só percebemos o que nos estão a dizer quando ouvimos outra pessoa, que nos olha olhos nos olhos, dizer algo que nos magoa. Hoje magoei quem não merecia ser magoado. De todo. Foi para o meu bem e dela também. Mas magoei. Terei de viver com isso, o que não é tarefa fácil para mim. Ás vezes é mais fácil falar com as crianças. Ser adulto em certos dias é uma merda.
E eu, sinto-me um lixo, porque magoei alguém que não merecia, porque tinha de o fazer.

ser mãe, ser gente


Tenho dois filhos, um quase com 6 anos o outro com quase 2. A maternidade muda-nos, é verdade, senti bem as mudanças que ocorreram quer na forma como encaro a vida, quer na forma como olho para ela. Não é um lugar comum, eles são de facto o centro do meu mundo, pelos meus filhos faria qualquer coisa, mas este qualquer coisa não pode ser mostrar-me como não sou. Estou longe de ser uma Mãe Perfeita ou uma Super-Mãe, até porque não acredito que existam. Não sou,nem tenho ambição a tal. Claro que gostava de às vezes ter mais paciência para as birras intermináveis, gostava de ter prazer em me sentar com eles a brincar, preferia não ter de castigar, não ter de me zangar. Sou mãe, mas sou gente, também. Tenho os meus dias. Na maior parte deles consigo negociar (é mesmo essa a palavra) e, sem dramas, levar a água ao meu moinho, noutros também dou dois gritos, castigo faltas de educação e birras parvas. Quase nunca me sento a brincar com eles, deixo-os andar, dou-lhes liberdade, dou-lhes espaço, mantenho-me na plateia qual espectador, questiono-me se sou boa mãe, se estou a agir bem. Brinco com eles no parque, jogo à bola até de saltos altos, deixo-os tropeçar para lhes dar a mão quando se tentam levantar. Não brinco com eles como gostaria. Dou-lhes muito mimo, todos os dias lhes digo o quanto os Amo. Mas não brinco o que gostaria. Converso muito com eles, como se fossem crescidos, respondo a todas as perguntas mesmo aquelas que nos deixam uma pedra de calçada entalada na garganta, mesmo as mais difíceis de responder. Não lhes leio histórias todos os dias, mas oiço muita música com eles. Mostro-lhes o que posso do mundo. Abro-lhes os horizontes com pequenas coisas. Não estou "só" a educar duas crianças. Estou mais do que tudo a formar adultos. Estou a formar três adultos, eles e eu, sim, porque eu também aprendo com o que lhes transmito. Tenho aprendido a ser Mãe, tenho aprendido que ser Mãe é não deixar de ser gente. Que ser Mãe é ter defeitos e falhas sem me auto-censurar, porque ninguém é perfeito e eu não posso educar os meus filhos sob falsas aparências. Ser Mãe é também ser paciente, sobretudo comigo própria, é saber perdoar as minhas próprias falhas. Não brinco tanto como gostaria, mas dou-lhes espaço para serem eles próprios. Não brinco tanto como gostaria porque também sou gente. E, enquanto eles brincam olho para eles com orgulho dos seres ímpares que são e perdoo-me por todas as minhas falhas enquanto Mãe, só porque sou gente.