22.8.10

muita praia

foto: Olhares
Fim de semana maravilhoso. Muita praia, muito sol. Não fosse pela M. e tínhamos ficado na praia até o anoitecer. Hoje, repetimos. Muita praia, muito sol. Mais umas páginas de leitura postas em dia. Mas do que eu estava a precisar mesmo, era de sentir a água do mar e, o mar brindou-nos, a água estava fantástica: límpida, refrescante sem estar gelada. Do melhor. Mesmo. Venham mais fins de semana com calor e sol.

flores


"There are always flowers for those who want to see them"

Henri Matisse

somos todos descartáveis


Vivemos numa sociedade descartável. Todos os sabemos. Já não se deixa depósito para depois irmos devolver as garrafas vazias e recebermos de volta o depósito. As garrafas de vidro do leite foram substituídas pelas embalagens de papelão, quando vazias desdobram-se e depositam-se de vez no ecoponto amarelo. Os copos de vidro do iogurte são agora de plástico e quando vazios acabam no mesmo sítio dos pacotes de leite. As garrafas de cerveja, que continuam de vidro, já não se entregam no sítio onde as compramos e deixámos o depósito, existe um ecoponto verde onde as deixar. E os antiquados garrafões de água, em vidro com uma capa de plástico, também foram substituídos por mais plástico e o ecoponto amarelo está lá no mesmo sítio à espera deles quando vazios. Claro que tudo isto é assim se houver um ecoponto por perto e, mesmo havendo, se existir alguma consciência ecológica por parte de quem comprou e não deixou depósito, caso contrário vai tudo parar ao lixo e não se fala mais nisso.
Se virmos bem, o que passámos a fazer com as embalagens, é exactamente o que se passa em tudo o resto. Antigamente comprava-se um frigorífico e esperava-se que durasse uma vida. Quando avariava chamava-se um técnico que o arranjava. A verdade é que actualmente a maior parte das avarias não compensam o arranjo. Vivemos numa sociedade de consumo e é mais fácil [e barato] substituir por um novo. As máquinas do lar foram feitas para durar meia dúzia de anos, os carros para serem trocados de 4 em 4 anos, a partir de determinada altura é só chatices. Inundações em casa porque não usámos calgon ou calgonit e as máquinas são subitamente invadidas pelo calcário ou a chatice da electrónica lixou um módulo que sai quase mais caro que a máquina, os carros, como toda a gente sabe, quando começam a dar problemas habituam-se a sentir as mãos do mecânico e depois não querem outra coisa. Os nossos sapatos deixaram de ir ao sapateiro, quando acabam as solas ou as capas deitam-se fora [ou dão-se aos pobres] e aí está uma boa desculpa para comprar-mos o modelito que vimos na montra daquela sapataria. Nas calças dos miúdos já não são cozidas joelheiras, os saldos da Zara tem umas em conta que são quase o que leva a costureira a cozer umas. O telemóvel nem precisa de avariar, basta sair um modelo mais bonito, mais actual, que tenha mais uma função qualquer [mesmo que nunca tenhamos precisado dela nem a venhamos a utilizar] e é substituído na primeira passagem pela loja. Se um empregado muito válido para a empresa quer sair porque acha que está a ser mal pago ou tem poucas regalias é deixá-lo sair e contratar um recém licenciado por um quarto do ordenado e está feita a coisa. Já ninguém lava fraldas de pano, é mais fácil ir ao supermercado comprar um pacote das descartáveis. Os guardanapos de pano caíram em desuso e os de papel agora são reis à mesa. O cão que já não corre e arrasta-se deixa-se num sítio qualquer e o gato que já não acerta no caixote para fazer as suas necessidades fica a fazer companhia ao cão, a caminho de casa passa-se na loja de animais e compra-se um hamster ou uma tartaruga que dão menos trabalho e a criança nem vai dar por falta dos animais, afinal também já não lhes ligava muito. O avô e a avó são enfiados num lar quando já não tem energia para tomar conta dos netos e precisarem de alguém que tome conta deles. E, já nem os móveis são comprados para toda a vida, afinal existe a Ikea e mais vale ir comprar uma mesa nova e aproveita-se para mudar toda a decoração da casa e deitar fora aqueles presentes de casamento que já ninguém usa.
Também nós, pessoas passámos a ser descartáveis, mas desengane-se quem pensar que qualquer um de nós é descartável apenas para a entidade patronal. Somos de um modo geral descartáveis. É a lei do lucro. Procura-se lucrar a todo o custo. Não interessa quem fica por baixo, desde que não seja o próprio. Deixou de se dar verdadeiro valor às pessoas, aos outros. Não se valorizam sentimentos. Tudo é um dado adquirido como se todos fossemos crianças mimadas [no mau sentido, entenda-se]. Déspotas, que à mínima contrariedade nos voltamos para quem com facilidade está do nosso lado, para quem nos dá mais naquele preciso momento. Já não temos paciência para aturar os problemas dos outros, ouvimos-los num momento de tédio e entretemos-nos até termos uma nova distracção que nos apraz mais. A lealdade é um sentimento em vias de extinção, tal como os trocos que um dia deixámos de usar como depósito das embalagens.

20.8.10

pessoas-corvo

Existem pessoas que interferem com o meu estado. Não sei explicar, mas interferem. Chamo-lhes pessoas corvo porque parece que trazem uma névoa escura à volta. São pessoas negativas, das que nos puxam para baixo. Umas por mal, outras apenas porque são assim mesmo, negativas, pessimistas, que vêm maldade em tudo e em todos, desgraças iminentes, nada pode correr bem e quando corre é uma sorte dos diabos. Queixam-se a toda a hora das crueldades da vida para com elas, prevêem o azar que lhes vai bater à porta. Algumas numa versão mais negra transferem todas estas desgraças para os outros como uma doença altamente contagiosa. Basicamente a felicidade(?) delas resume-se a ver o circo (leia-se, a vida dos outros) pegar fogo. Usam um tom de voz que soa a ladainha para espetarem farpas e assim conseguirem que um dia salte a tampa ao enfarpado, estando, assim, na primeira fila a assistir ao espectáculo.
Estas não me incomodam muito, topo-as à distância e basta-me afastar para que se tornem inócuas. As que me incomodam são as que são assim mas sem a maldade e que podem até fazer parte do círculo mais estreito. Essas sim, interferem no meu bio-ritmo. Só a sua presença mexe comigo fisicamente. Esgotam-me as energias. Lembro-me de uma pessoa com quem privei durante muitos anos que bastava-me a sua presença para que eu sentisse o meu estado de espírito mudar, entrar na casa dela era um sacrifício, saía sempre de lá com a moral feita um caco. Era extenuante para mim e muitas vezes pensei o quão triste deveria ser ser-se assim. Triste, de mal com a vida, sempre com o pensamento da desgraça a bater à porta.

outro jornalismo

Hoje, numa conversa de escritório sobre jornalistas e programas de informação lembrei-me dela. Maria Elisa. A voz, a postura, a seriedade, a falta de sensacionalismo, o cuidado na preparação dos programas.
Tenho saudades de a ver no pequeno ecrã.

a vida pode ter a cor que quisermos

elogios



"I’m tough, I’m ambitious, and I know exactly what I want. If that makes me a bitch, okay."

Madonna

19.8.10

Napoleão & Josephine


"Until then, mio dolce amor, a thousand kisses; but give me none in return, for they set my blood on fire."

Napolean Bonaparte, letter to wife Josephine, December 1795

Balzac & Evelina



"I can no longer think of anything but you. In spite of myself, my imagination carries me to you. I grasp you, I kiss you, I caress you, a thousand of the most amorous caresses take possession of me."

Honore de Balzac, letter to Evelina Hanska, June 1836

encha mais a sua casa


Há noites em que em vez de ser mãe de dois sou "mãe" de três. Vou buscar o T. e trago o R. para casa também. Depois seguimos os três e vamos buscar o A.
Hoje é uma dessas noites. O R. um dos "melhores" amigos do T., é mais velho. Nada que incomode o T. que sempre teve propensão para ser dar com todas as idades e fazer amigos com idades diferentes e por vezes até improváveis. Acho lindo, vê-los aos três. O R. trata o A. exactamente da mesma maneira que o T. O A. adora-o. Jogam tudo o que é jogos juntos e neste momento tenho os três no hall de entrada sentados no chão a jogar o jogo de cartas do Sherk oferecido pela Mc Donalds. O que já me ri com o jogo deles com as figurinhas que eles fazem e com os disparates que dizem. E é tão bom, vê-los, assim, felizes.

a Maria tem um sonho e eu acredito que o vai realizar

"Quando aqui vos disse…

… que continuo a acalentar este meu sonho com a vontade redobrada de quem investiu e investe tudo o que tinha e tem nele: toda a formação, todo o dinheiro, todo o tempo, o melhor de mim, queria acima de tudo dizer-vos que um sonho, mais do que uma ideia bonita em torno de “ai, eu um dia…”, é algo que tem que forçosamente se materializar sob pena de não passar disso mesmo, de uma ideia bonita.

Quando se quer muito uma coisa na vida, pega-se num papel e numa caneta, marca-se um caminho e custe o que custar [e tem dias em que só nós e o Senhor é que sabemos o estado de lástima em que nos encontramos] não nos desviamos dali, não arredamos pé, não fraquejamos, não desistimos, não vamos embora.

Hoje olho para trás e conto com duas licenciaturas no meu Curriculum e três pós-graduações. Hoje olho para trás e não vejo as férias que perdi, as viagens que não fiz, tudo aquilo de que me privei. Hoje, continuo agarrada àquele papel onde um dia tracei o meu sonho e olho em frente. Mesmo quando tropeço, mesmo quando as pernas me falham, mesmo quando a dúvida se instala, eu olho em frente."


(fazer duplo clique na imagem para ampliar]

felizes são os ignorantes



Não vejo notícias. Não leio jornais. Não quero saber. Juro que não quero saber. Irritam-me as imagens despudoradas que mostram e a leviandade com que o fazem. Eu não preciso de ver uma imagem chocante para ter a noção da brutalidade envolvida numa notícia. Não preciso. A minha imaginação consegue fazê-lo. Mesmo essa, a imagem emitida pelo meu cérebro fica ali a pairar como um pesadelo repetitivo. Odeio notícias cheias de corpos inanimados e estropiados. Execuções filmadas por câmaras amadoras. Crianças quase mortas de fome, de desidratação, de pestes nos braços de um dos pais. Torturas captadas por câmaras de vigilância. Não quero saber, não quero ver.
Em casa a televisão nunca está num canal com notícias. Tive inúmeras discussões com o pai dos meus filhos, que tão informado que gostava de estar, ligava a tv e zarpava para outro lado qualquer da casa deixando todo um chorrilho de desgraças entrar sala dentro, ali, à mercê de uma criança que cirandava e claro especava-se na frente do aparelho. Agora é proibido, a televisão não pode estar em canais com notícias a não ser que esteja alguém de facto a ver e com o comando na mão preparado para mudar de canal. Eu sei que não posso [e não devo] poupar os meus filhos a tudo, mas há coisas que eles dispensam e garanto que não é por não verem certas imagens que vão ser menos informados, menos conscientes.
Já para não falar que, na minha modesta opinião, este tipo de imagens são passadas tantas vezes e com uma naturalidade tal, que às tantas tem o efeito inverso, já ninguém quer saber, já é tão normal.
Eu prefiro continuar as usar os meus óculos cor de rosa para ver o mundo como gostaria que fosse e não saber, a ser perseguida por imagens chocantes e ter a certeza todos os dias da merda que existe no mundo.

"cozinhar é um acto de amor"

Já tinha ouvido a expressão inúmeras vezes, já cozinhei muitas vezes com verdadeira devoção, mas o sentido real da expressão só o senti verdadeiramente estas férias.
Finalmente percebi o que é de facto. É maravilhoso. E eu, aprendiz de chef quero senti-lo sempre que me atirar aos tachos.

[Deus protege os desleixados]


imagem: Enid Coleslaw

Já não ia ao oftalmologista, à vontadinha, à mais de 10 anos. Dessa vez, receitaram-me uns óculos para lêr, escrever, ver televisão e, sobretudo, para quando estava ao computador, porque, dizia a médica: "A sua vista está extraordinariamente cansada". O medo e o horror apoderaram-se de mim. Não tenho nada contra óculos, aliás sou dependente dos escuros, mas não me apetecia nada aos 20 e tal anos ficar dependente do acessório e, pior, era sinal que a minha visão se estava a degradar. Mas tudo isto é muito bonito no dia em que saímos do médico cheios de boas intenções e vamos directamente ao oculista e-os-óculos-afinal-não-ficam-assim-tão-mal. Durante os primeiros tempos [uma semana, vá] a coisa está fresquinha e passam-se os dias a pôr e a tirar óculos e a limpar as lentes e a arrumar na caixinha e a vida parece que de repente gira à volta das lunetas. Volvida uma semana e já só se usa se estiverem ali à mão de semear e, é se nos lembrarmos que falta o acessório pendurado no nariz.
Resultado? Andaram a saltar de gaveta em gaveta, mas na cara nunca mais foram vistos. 10 anos volvidos, ao marcar a consulta de oftalmologia lembrei-me dos ditos e apesar de achar que me iam receitar mais graduação[duas gravidezes pelo meio e tal não deveriam ter dado muita saúde], achei melhor levá-los. Felizmente que a moda é cíclica e os óculos usados na época usam-se agora e eu poupava uma pipa de massa em armações.
Mas depois, Deus é grande e tudo isso e a menina não precisa de óculos para nada que tem uma visão fabulosa que até vê acima da média. Não satisfeita, toma lá mais uma cerejinha que o infante mais novo também tem uma visão 10% acima para a idade.

18.8.10

eu & eu, somos duas [uma luta de opostos sem meio-termo]


Eu sou urbana e mudava-me para o campo num piscar de olhos. Gosto de saltos altos e adoro andar descalça. Uso prata e perco-me com pérolas. Gosto de cores fortes e derreto-me com os pastéis. Tenho cabelo comprido e facilmente o cortava curto. Sou independente e gosto de sentir o conforto de uma mão. Entusiasma-me conduzir um Ferrari e um Fiat 500 não me entusiasma menos. Gosto de dias calmos e vibro com dias agitados. Oiço rock e deixo-me envolver por uma ópera. Gosto de tecidos esvoaçantes e aconchego-me nas lãs. Vibro com o Verão e gosto dos jingles do Natal. Leio espionagem e deixo-me levar num romance. Colecciono pijamas e adoro lingerie. Uso verniz branco e verniz vermelho. Gosto de vestidos de princesa e gosto de jeans. Como gelado de chocolate e gelado de framboesa e limão. Gosto de margaridas e de orquídeas. Gosto do moderno e do antigo. Gosto de voiles e de cortinas às florinhas. Mergulho no mar e rebolo na relva. Gosto do amanhecer e do anoitecer. Gosto de Nova York e de Vila Nova de Cerveira. Gosto de minimalismo e de romântico. Gosto de botas de camurça e de sapatilhas de ballet. Gosto de casas antigas e de casas modernas. Como manteiga e lambuzo-me doce. Gosto de jogar crapot e de Age of Empires. Gosto de cães grandes e de gatos pequenos. Gosto de galopar e de fazer yoga. Gosto de casacos militares e de encharpes. Gosto de velas brancas e de lustres de cristal. Gosto de fotografia e de lápis de côr. Teclo sms e escrevo cartas de amor.
E assim, nesta pequena amostra percebo que podia viver duas vidas completamente distintas e sentir-me viva e única em ambas. Díficil é equilibrar as duas numa só.