3.9.10

amigos-abrigo


Nunca fui pessoa de grupinhos, flutuei sempre nos que existiam à minha volta. Nos tempos de criança, mais no dos rapazes do que no das raparigas. Na altura achava-as um bocado parvinhas e tinham brincadeiras parvinhas, sem sal, ao menos com os rapazes jogava à bola, andava de bicicleta e de carrinhos de esferas, levava e dava canelas e trepavamos a muros para ver o que havia do outro lado, elas limitavam-se a ficar ali num canto com o enxoval todo das bonecas a epiriquitar-se com os colares de pulseiras velhas das mãe, armadas ao pingarelho a fingirem-se muito crescidas e donas do seu nariz, tudo era um aborrecimento para elas, tudo era diversão para eles. A mim, parecia-me óbvia a escolha. Mais tarde, na idade parva, onde contam as aparências, a que tem o namorado mais giro, mais alto, mais atlético, os mamilos mais salientes, elas tornavam-se ainda mais salientes, manientas e com conversas, atitudes e interesses ainda mais salientes e parvas. Os rapazes, apesar da idade parva, também nesta idade eram mais interessantes, jogavam snoker quando não havia aulas, falavam de música, de futebol e de filmes, os que tinham namorada mantinham-se mais à parte, juntando-se ao grupo nos intervalos do namoro. Claro que no seio dos grupos masculinos não era tudo um mar de rosas, também os havia parvinhos, manientos e charrados.
Não tenho amigos que me tenham acompanhado desde sempre. Em todas as fases da minha vida fiz amigos que se mantiveram, uns em mais, outros em menos fases, acabaram por se dissolver como ondas na praia. Nada de grandes dramatismos. Costumo pensar que em termos de amizades a minha vida assemelhou-se muito às amizades daquelas crianças que mudaram muitas vezes de casa e de zona sem nunca assentarem verdadeiramente arraiais num sítio. Pensando bem, é normal, foi isso que aconteceu comigo também.
Já na fase adulta e, a minha começou bem cedo, tive a sorte [e os discernimento] de me "dar" com pessoas com alguma formação, não falo no sentido académico, apesar desse também estar presente, falo no sentido de pessoas com objectivos de vida, uns mais do que outros é certo, mas ainda assim, todos o tinham. O último grupo onde "flutuei" era constituído por pessoas que trabalhavam ou estavam a estudar, hoje, tanto quanto sei têm a sua vida organizada. É deste grupo que guardo a minha amizade mais antiga, já lá vão 17 anos. Pode não ser muito para muito boa gente, afinal há por aí tanta gente que guarda amizades desde as fraldas.
Para mim a antiguidade não é um posto, nem poderia ser, senão estava bem tramada. Conservei as amizades que a vida não se encarregou de separar. Não faz qualquer sentido, para mim, chamar de amigo(a) quem não o é verdadeiramente. Amigos para copos e troca de cusquices é o que pr'ai anda aos pontapés, basta sair umas quantas vezes à noite e fazem-se amigos de copos antes do diabo esfregar um olho, amigos para troca de dedos de conversa fútil? Qualquer um serve. Para mim, amigos, são abrigos. São os que nos fazem um jantar num dia não, que oferecem um café mesmo que tenham de atravessar a cidade e esteja frio e a chover, que nos recebem na sua casa e nos fazem sentir na nossa, que nos fazem atravessar metade do país porque estamos doentes e até nos fazem uma canja com ovinhos e tudo, que passam horas connosco ao telefone a ouvir as queixas de sempre a ladainha do costume, os que ficam calados a enxugar-nos as lágrimas, os que choram connosco, os que riem connosco, os que nos abrem os braços quando sentem que estamos a precisar de um abraço, os que nos oferecem guarida porque há uma avaria e não há luz para tratarmos das crianças, os que telefonam só para saber como estamos e os que telefonam ao menor sinal de alarme para saberem se está tudo bem e, se não estiver, largam tudo para nos dar um abraço e um abrigo.
E se calhar, só por eu ser assim tão exigente, é que hoje, aos 36 anos posso dizer que tenho os melhores amigos do mundo, que são todos tão diferentes entre si e ao mesmo tempo com tantos pontos em comum. Sou uma priveligiada

2.9.10

modas que eu nunca vou entender

[como é que alguém veste uma leggings, vê-se ao espelho e sai à rua, como?]

brindar aos sonhos realizados



[a vida pode ter a cor dos nossos sonhos]

[era só isto]

surf report


O mais recente surfista da área continua armado em galdério e resolveu dormir mais uma noite fora de casa porque amanhã tem a terceira aula de surf. Acasos dos acasos eu, mãe do dito filho desertor, fui a um centro comercial para trocar um jogo que lhe ofereceram pelo aniversário e, qual é o meu espanto que o vejo ali mesmo à minha frente com o amigo e com a mãe [minha amiga] que lhe deu guarida. Após o espanto inicial, até porque na loja estava mais uma pessoa que nós conhecemos e de repente éramos uma multidão a repetir ahs e ohs , lá consegui perceber com a I. que afinal não são coisinhas de mãe babada e que a criança até tem um jeito natural para a coisa e, hoje , na segunda aula até se pôs em cima da prancha e tudo. Escusado será dizer que a baba que escorria, rapidamente secou logo que os meus neurónios processaram e projectaram o meu futuro próximo com uma criança a chagar-me a paciência com pedidos de aulas e de pranchas e fatos e idas à praia com graus negativos. A mim, que ando à dois ou três anos a agoirar que qualquer dia passamos o Natal na praia porque o verão começa cada vez mais tarde e que [felizmente] também acaba cada vez mais tarde, já me estou a ver enrolada em mantas na areia enquanto a criança brinca com as ondas e verão no Natal que era bom só lá para os lados do Brasil.

[Só de pensar em todo o novo vocabulário que pr'ai vem, até fico com dores de cabeça. Hajam mantas e migraspirina com fartura.]

1.9.10

sentença


Confesso que aguardo com alguma curiosidade, mas sem grandes expectativas pela sentença do processo Casa Pia.
Acima de tudo o que tem de deplorável, parece-me lamentável que não exista forma de proteger quer as crianças quer as instituições que lhes dão abrigo e sobretudo um futuro, de pessoas da estirpe que trouxeram a Casa Pia para as primeiras páginas dos jornais e para a abertura dos telejornais. É que a Casa Pia não se limita a albergar crianças que dela necessitam, abre-lhes os horizontes, dá-lhes ferramentas para que consigam construir um futuro. Mais até do que qualquer escola e colégio, dá-lhes uma formação que podem utilizar e não apenas o ensino dito obrigatório, às crianças são dadas opções. E espero que apesar de tudo o que manchou a Casa Pia, não haja aluno com vergonha de se dizer Casapiano e que a sociedade os continue a ver os ex-alunos como profissionais com boa formação, como eram antes de toda esta vergonha ser revelada.


conclusões

Com tanta pesquisa sobre Itália, depois de tanta coisa lida e com o culminar de uma viagem de sonho, estou em condições de dizer que no regresso vou-me dedicar afincadamente a aprender italiano.
Cheira-me que vou lá voltar muitas vezes.

Se tivesse 20 anos mudava-me de armas e bagagens para Itália, afinal aos 20 anos não tinha nada nem ninguém que me prendesse cá.

abiti

Dolce & Gabbana

[nada deve causar tanto sofrimento e desgosto como gostar de alguém que é suposto odiarmos]

doces sonhos


Nada me parece tão doce como o realizar de um sonho partilhado

a vida pode ter a cor dos nossos sonhos VI


[Faltam apenas algumas horas para dar os primeiros passos para a realização de mais um]

tão verdade há um ano como hoje

Consegui.
Finalmente consegui.
Venci.
Perdi batalhas graças ao uso da chantagem, essa arma tão nojenta e tão fácil de ser usada por quem não tem tomates para enfrentar um opositor com dignidade.
Perdi batalhas por me deixarem de mãos e pés atados, porque é tão mais fácil cortar as asas a alguém do que deixar voar.
Ganhei batalhas porque paguei o que me era exigido, porque movia céus e terra se necessário fosse, porque a minha liberdade, essa, assim como eu, não há cheque que pague.
No final, vencem os bons, os que agem com convicção, com força para enfrentar quem aparecer pela frente, os que mesmos que depois de cairem se levantam, os que não se vendem, os que acreditam que a vitória é possível, mas sobretudo os que sonham e que sabem traçar metas e desenhar caminhos para lá chegar.
Vencem os que vão a jogo.
E, hoje, no dia em que celebro uma das minhas maiores vitórias, olho para trás, porque é quando olho para trás que sei do que sou capaz, vejo o que eu passei para aqui chegar.
Cheguei e cheguei de pé.

tunisini

Claudia Cardinale

pêlo na venta


foto: Olhares

Sou dona do meu nariz. Habituei-me muito cedo a fazer por mim. Não sigo directrizes. Peço conselhos e sigo-os se achar que os devo seguir, mesmo que o resultado final seja dar com os cornos numa parede. Já fui acusada muitas vezes de só fazer o que me dá na real gana, que só sigo conselhos se estes forem de acordo com o que eu pretendo, que tenho de ter sempre razão. Sim, eu sei é verdade. E, provavelmente, eu podia ser mais ponderada, podia dar mais ouvidos aos outros, mas a verdade é que até hoje, tirando um ou outro pormenor, dei-me bem ou, pelo menos nunca passei ao lado de um resultado melhor do que o obtido. Gosto de fazer as coisas à minha maneira. Não tenho pachorra para meias medidas. É o tudo ou o nada. Tudo o que quis consegui, com muito esforço, é certo, mas está cá e é meu e a mim o devo. Nunca deixei que me travassem, nem por bem e muito menos por mal. Não tenho feitio para mosca-morta. Para esperar, para pedir. Sou de convicções fortes, certas ou erradas, mas são minhas e, isso ninguém me tira. Gosto de lhe chamar personalidade. Uns têm, outros não.

Roberto Cavalli


stile di guida

Bianca Balti

l'uomo prova

Giancarlo Fisichella

Capri

viaggio per due

exercícios de memória


Tento lembrar-me do nascimento deles, não que me esqueça, mas tento muitas vezes lembrar-me do filme todo. Reviver mentalmente cada minuto, cada acontecimento, cada pormenor, como se fosse ontem. Dos pequenos nadas a tudo de grandioso. O que vi, o que senti, o que pensei. Tenho medo que a memória se vá desvanecendo, que se vão apagando pequenos fragmentos e que em vez de um filme guarde apenas um trailer. É demasiado importante, demasiado bom para ser lembrado numa correria de neurónios. Gosto de me lembrar como se estivesse a ler uma história e muitas vezes abandono todos os meus pensamentos e insisto, mesmo quando a minha mente tenta fugir-me para temas triviais, puxo-a e obrigo-a a fica ali em modo play e repeat até estar satisfeita com todas as imagens.